Fraudes internas atingem os bancos do País, refletindo ausência de prevenção

Os bancos brasileiros ainda estão despreparados para cuidar de suas fraudes internas: dos grandes, pouquíssimos possuem alguma solução de prevenção. Ao mesmo tempo, a maior digitalização bancária também deve exigir uma melhora rápida dos sistemas já existentes.

A grande maioria das instituições financeiras brasileiras nem mesmo sabem mensurar o quanto perdem com as fraudes internas, uma vez que os montantes extraviados são contabilizados como perdas operacionais.

"Ou existe um processo fraudado dentro do banco que não se sabe nem de onde vem ou a instituição sequer descobriu que tem uma perda", comenta o especialista em prevenção a fraudes bancárias do SAS América Latina, Carlos Sovegni.

Isso acontece principalmente nas grandes instituições ou nos serviços terceirizados, uma vez que "quanto maior uma organização, mais difícil fica de ter o controle" quanto a esse tipo de crime.

De acordo com o especialista em desenvolvimento de soluções de fraude da América Latina da FICO, Fabio Cegali, as instituições ainda "não prestaram a devida atenção" para fraudes nos sistemas internos.

"É costume esperar o problema acontecer para o gasto vir na remediação das perdas, e isso atrapalha muito", pontua o executivo. Ele completa que, nesse caminho, o processo torna-se difícil até mesmo para aqueles que conseguem nomear essa situação.

"Os que identificam podem até ter uma boa governança corporativa, mas não têm a ferramenta para lidar com grandes volumes", afirma.

Já para a sociedade, o que falta é divulgação. "A divulgação dessas questões é quase zero, principalmente porque implica em falta de confiança e credibilidade do cliente e esses são os pilares que fazem o sistema bancário funcionar", comenta Sovegni.

"A discussão do problema evitaria os erros recorrentes, mas isso expõe uma vulnerabilidade muito forte, e ninguém gosta de explorar suas próprias fraquezas", acrescenta Cegali.

Baixa assertividade

Ainda em relação à necessidade de aprimoramento de sistemas anti-fraude e anti-crimes financeiros, outras questões que têm sido levantadas são os possíveis impactos da maior digitalização bancária, principalmente para acompanhar o movimento iniciado pelas fintechs e bancos digitais.

Segundo Carlos Sovegni, especialista do SAS, a transformação do sistema financeiro frente a tendência cada vez mais forte de extinção dos meios físicos e maior abordagem digital, "as necessidades passam a ser outras".

"A aderência das fintechs acelerou o processo de digitalização dos grandes bancos e as fraudes de cartão de crédito e invasão de conta, por exemplo, que eram muito altas, começam a diminuir enquanto a de falsidade ideológica começa a aumentar exponencialmente", analisa o executivo.

Nesse cenário, porém, os sistemas anti-fraudes que exigiam a presença das pessoas nas agências físicas, ao menos uma vez, para cadastro da digital, começam a dar espaço para a biometria facial, de voz ou por batimentos cardíacos, que, por sua vez, ainda não possuem a mesma eficácia dos sistemas antigos.

"A assertividade desse tipo de sistema ainda é muito baixa e não chegou aos patamares de segurança que a biometria digital consegue oferecer, por exemplo. Se os bancos quiserem acompanhar o movimento de digitalização, o processo vai exigir uma mudança rápida nas soluções anti-fraudes", complementa Sovegni.

Para Cegali, da FICO, no entanto, os bancos estão "bem encaminhados" para essa evolução tecnológica.

"A maior conectividade preocupa pelo aumento de informações disponíveis, e os bancos, muitas vezes, deixam de contar apenas com sua própria segurança para controlar a de serviços terceirizados. A vulnerabilidade do processo, porém, exige monitoramento constante", avalia.

Fonte: Jornal DCI-07/03/2017